sexta-feira, 2 de abril de 2010

CARDÁPIO DE CÃO

Pense em Marley, o labrador de 44 kg e totalmente trapalhão do mega-bestseller "Marley e eu", de John Grogan.
Entra na vida de John e Jenny para ajudá-los a testar seus talentos de mãe e pai. Ocupa todos os espaços possíveis, dentro e fora de casa, no coração dos donos e em tudo que os cerca. Está lá quando chegam os bebês, sempre com seu jeitinho temperamental e brincalhão. Mas puro, puro, um modelo de devoção canina.
Você tem um Marley em casa, eu tenho um Marley, muita gente tem.

Agora vamos pensar nas rações compradas a peso de ouro nas petshops e em alguns de seus indesejáveis efeitos colaterais: hormônio demais, por exemplo.
O contraponto para a ração é a comida de cão, bem feitinha no fogão da família, enriquecida com vegetais de todo o tipo. Pratos fartos e deliciosos. Na medida de um cão arrasa-quarteirão e acaba com o estoque de Kleenex feito Marley.
Opções dessse contraponto é o que se pode encontrar no livro "Bom para cachorro", da chef Roberta Sudbrak (SENAC), inspirado num Golden retriever chamado Júnior.
Para ele foi concebido esse 






ENSOPADINHO DO JÚNIOR
300 g de alcatra magra
600 g de couve-flor
120 g de shitake
60 g de gérmen de trigo torrado
5 g de alho
12 g de cebolinha verde fatiada
1 g de sal

Modo de fazer
Corte a alcatra, a couve-flor, o shitake e o alho em pedaços bem pequenos. Coloque os ingredientes em uma panela, acrescente o sal e cubra com água fria. Leve ao fogo e, assim que começar a ferver, abaixe o fogo e cozinhe até que a couve-flor esteja macia. Retire do fogo, acrescente o gérmen de trigo, a cebolinha e deixe descansar com a panela tampada por 15 minutos. Sirva em temperatura ambiente.





domingo, 28 de março de 2010

OS PRATOS DA MEMÓRIA

A primeira página do livro dá o tom. É um pequeno poema:

"Come-se
a lua numa tortilla,
Nos feijões,
sente-se a terra.
Coma chili
e terá sol e fogo.
Beba água
e é o céu a deslizar".
O livro chama-se "Recipe of memory- five generations of Mexican cuisine", escrito por Victor Valle e Mary Lou Valle e publicado pela The New Press, Nova York (1995). A proposta, realizada nos mínimos detalhes, é recriar a história de uma família a partir das receitas que vão passando de mão em mão, de paladar em paladar, de mãe para filha. Na verdade, a investigação do casal Valle vai além desse registro histórico doméstico. Para entender como funcionam os mecanismos de perpetuação desse ou daquele prato, eles acabam investigando o momento político que permitiu às diferentes regiões do país terem o predomínio sobre a cultura e os costumes das outras, bem como o desenvolvimento de "culturas" paralelas, como a dos pequenos hotéis ou paradores.
Sem pretensões, Victor e Mary Valle fazem história cultural da boas, como aponta Elena Poniatowska em seu prefácio. Das páginas de seu livro emerge a cidade de Guadalajara em toda sua criatividade gastronômica, e figuras artísticas da região de Jalisco como os pintores Orozco e Diego Rivera, ou o escritor espanhol Ramón del Valle Inclan, apaixonado pela mulher de Rivera, Luper Marín. Brotam, igualmente, birrias- prato com carneiro, uma sopa chamada posole, receitas com pombos, batatas-doces, amêndoas, e imagens de casas da cor do barro, pontilhadas por buganvíleas e gerânios.


CONSOMÊ VIOLENTO

A receita deve esse nome à maneira como a gema de ovo e um pouco de xerez é batido e introduzido num caldo fumegante pouco antes de servir. É importante escolher um xerez espanhol legítimo, pois são mais secos do que doces.

SOPA
2 colheres de chá de azeite
1 cebola  média, cortada em pedaços
1 xícara de tomates assados, pelados e cortados
5 xícaras de puchero (ver receita abaixo)
1/2 colher de chá de noz moscada
1/4  colher de chá de pimenta branca
1 folha grande de louro
1/2 colher de chá de sal
1 gema de ovo, batida
1/8 xícara de xerez
1/4 xícara de salsa picada





PUCHERO
2/4 de xícra de água gelada
1 kg de carne picada
250 g de frango
1/2 xícara de grão de bico previamente cozidos
1 cebola média picada
2 cenouras médias , peladas e cortadas pela metade
1 cabeça de alho
1 nabo, pelado e cortado
1 nabiça, pelada e cortada
1 folha de louro
1/2 colher de chá de pimenta branca
1/2 colher de chá de sal
4 folhas de salsa
1 abóbora média ou abobrinha cortada

Junte numa panela a água, a carne, o frango e o grão de bico. Junte a cebola, alho, cenouras, nabo, nabiça, louro, pimenta, sal e salsa. Deixe o caldo levantar fervura. Diminua o fogo e cubra o caldo por 1 hora e meia. Junte a abóbora ou abobrinha 15 minutos antes de servir. Retire os legumes e carenes. Coe o caldo e leve-o à  geladeira por pelo menos uma hora. Retire a gordura que se formará na superfície.

CROUTONS
3 colheres de chá de manteiga
2 colheres de chá de azeite
3 fatias de pão dormido cortado em formato triangular





PREPARAÇÃO
Esquente uma colher de azeite numa panela média em fogo moderado e deixe dourar a cebola por três ou quatro minutos até amaciar. Remova a cebola da panela e num processador bata a cebola com o tomato até formar uma mistura cremosa.
Esquente o restante do azeite em fogo alto. Reduza o fogo para médio e adicione a mistura de tomates e cebola. Ela deverá ferver em contato com o azeite. Deixe refogar por cerca de 2 minutos. Adicione a noz moscada, a pimenta, louro, sal e reduza o fogo, deixando cozinhar por cerca de 5 minutos. Coloque a mistura de tomates numa panela para sopa contendo 5 xícaras pré-aquecidas de puchero, deixe ferver e depois cozinhar por 10 minutos. Remova a folha de louro.
Prepare os croutons enquanto a sopa ferve. Esquente o azeite e a manteiga, adicione os pedaços de pão e deixe-os dourar. Separe os croutons.
Coloque a sopa na sopeira e a coloque na mesa. Imediatamente introduza a gema batida e em seguida o xerez. Sirva a sopa enfeitando cada prato com salsa e croutons

sábado, 28 de novembro de 2009

A VISÃO DA COXIA

"A casa das lembranças perdidas", da australiana Kate Morton, foi um fenômeno de vendas na Inglaterra, onde ultrapassou o patamar de um milhão de exemplares lidos. A história não podia ser mais autorreferentemente britânica. A queda de uma família tradicional, os Ashbury, vista pelos olhos de uma criada, Grace, que começa como arrumadeira, passa a camareira, e termina seus dias alforriada, com doutorado numa universidade e de bem com a vida, exceto por um detalhe. Nunca conseguiu superar sua relação com a família que a acolheu aos 14 anos, nem as lembranças das tragédias de que foi testemunha e coadjuvante.
É da rotina de Grace na casa de Riverton que tratam os primeiros capítulos do livro, ricos em descrições como esta
" No centro da toalha de linho branco, nós espalhamos hera e arrumamos rosas cor-de-rosa ao redor de fruteiras de cristal cheias de frutas. Estes enfeites me agradavam; eram muito bonitos e combinavam perfeitamente com o melhor aparelho de jantar de milady- um presente de casamento, Nancy disse, dos Churchill, nada menos".
A visão de jantares, festas, a partir da coxia, da cozinha, do corredor onde os criados se revezavam pegando os pratos e repassando-os para a copa, é uma das criações mais notáveis de Kate Morton.
"Eu observava encantada enquanto um prato atrás do outro de comidas maravilhosas era despachado lá para cima- sopa de tartaruga, peixe, miúdos, codorna, aspargos, batatas, tortas de damasco, manjar branco- e desciam pratos sujos e travessas vazias".
Ou
" O peixe seguiu-se à sopa de ervilhas, o faisão veio em seguida ao peixe e tudo estava indo bem. Nancy aparecia de vez em quando lá embaixo, fornecendo informações bem-vindas do decorrer da festa. Embora trabalhando uma velocidade fantástica, a Sra.Towsend nunca estava ocupada demais para uma atualização do desempenho de Hannah como anfitriã. Ela balançou afirmativamente a cabeça quando Nancy anunciou que, embora a Srta. Hannah estivesse se saindo bem, seus modos ainda não eram tão charmosos quanto os da avó".
Abaixo, a receita ( estilizada) do que poderia ser uma das especialidades da cozinheira da mansão Riverton, a Sra.Towsend, cujas tortas de "massa dourada e crocante" nunca eram suficientemente elogiadas.

TORTA DE FRANGO E COGUMELOS

recheio
2 colheres de sopa de óleo
1 cebola picada
1 dente de alho amassado
125 g de cogumelos fatiados
1 colher de sopa de farinha de trigo integral
2 xícaras de caldo de galinha
500 g de frango cozido e cortado em cubinhos
1 colher de sopa de salsa picada
sal e pimenta


massa
250 g de farinha de trigo integral
1 pitada de sal
125 g de margarina ou manteiga
2 ou 3 colheres de sopa de água
1 ovo para pincelar

Coloque a farinha e o sal numa tigela e acrescente a manteiga, mexendo até a mistura lembrar migalhas de pão. Junte a água e misture até obter uma massa firme. Leve ao refrigerador por 15 minutos..
Enquanto isso, aqueça o óleo num panela e frite a cebola até que fique macia. Adicione o alho e os cogumelos e cozinhe o caldo e mexa até misturar completamente. Leve novamente ao fogo e ferva, mexendo até engrossar. Adicione os ingredientes restantes e tempere a gosto com o sal e a pimenta. Misture bem e transfira para uma travessa com capacidade para 1,2 l.
Abra a massa de modo a obter um diâmetro de 5 cm a mais que o do prato. Recorte uma tira fina ao redor da massa e pouse-a sobre a borda umedecida do prato. Umedeça a tira e depois cubra com a massa, pressionando as bordas firmemente.
Acerte as beiradas, decore com folhas feitas dos restos recortados das bordas e faça um buraco no centro. Pincele com o ovo batido e asse em forno preaquecido, moderamente quente, por 30 min, até dourar. Sirva quente.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

MUFFINS À LA OSCAR WILDE

Aprendi a fazer muffins quando menina, porque uma vizinha tinha uma receita incrível e era delicioso testá-la em mil e uma combinações.
Mas os muffins ganharam um sabor especial quando, com cerca de 17 anos, descobri a obra teatral de Oscar Wilde. Eu era apaixonada por teatro, e a verve de Wilde, com sua certeira pontaria contra a sociedade do seu tempo- a mesma que lhe daria durissimo troco, mais tarde, em seu processo de corrupção- era um prato cheio de jogos de palavras, chistes, blagues, trocadilhos. Gostava de "O leque de lady Windermere" mas, sem dúvida, a minha peça favorita era "A importância de ser Prudente" ou "Ernesto", segundo o original. Eu a havia visto na televisão, na versão cinematográfica com sir Michael Redgrave, então podia imaginar, perfeitamente, os bigodes fremindo, o arquear de sobrancelhas e o stiff upperlip, o lábio superior rígido como a educação vitoriana, a cada cena ou página lida. E a altercação em torno do muffin era ( e continua sendo) impagável. Para acompanhá-la melhor, vale entender a trama. Algernon, encarnação do próprio Wilde, é um dândi sem escrúpulos que se apaixona por Cecily, tutelada de Jack que, por sua vez, ama e é correspondido por lady Gwendoleen, prima de Algernon. Os dois cavalheiros não poderiam ser mais diferentes. Até porque Jack é epítome da correção e da retidão de espírito. Ao final da peça, além dos amores correspondidos, vem a grande revelação: Jack e Algernon, não só são irmãos, como ambos se chamam Ernest, o nome preferido pelas damas.

CONFIRA O TRECHO DA PEÇA:
Jack: Como você pode ficar aí sentado, calmamente comendo muffins, enquanto há um terrível problema a resolver, não consigo entender. Você parece não ter coração.
Algernon: Bom, eu não posso comer muffins de maneira agitada. A manteiga provavelmente sujaria meus punhos. Deve-se comer muffins calmamente. É a única maneira correta de comê-los.
Jack : O que estou dizendo é que é perfeitamente desalmado comer muffins, da maneira que for, nessas circunstâncias.
Algernon: Quando tenho problemas, comer é a única coisa que me consola. Na verdade, quando estou realmente enrascado, como qualquer pessoa que me conhece intimamente poderia lhe assegurar, recuso tudo, exceto comida e bebida. No momento presente estou comendo muffins porque estou desgostoso. Além do mais, realmente aprecio muffins (erguendo-se).
Jack: Isso não justifica você comê-los tão vorazmente (pega uns muffins).
Algernon: (oferecendo um bolo) Eu preferia que você comesse do bolo, não gosto de bolo.
Jack:Céus! Imagino que um homem possa comer os muffins servidos em seu próprio jardim.
Algernon: Mas você acabou de dizer que é desalmado comer muffins.
Jack: Eu disse que era desalmado você comê-los, nas circunstâncias, o que é muito diferente.
Algernon: Pode até ser. Mas os muffins são os mesmos ( ele pega o prato da mão de Jack).
(ato II, cena 2).
Muffin que se preze tem que ter forma própria e recheios variados. Abaixo a receita básica da tia Consuelo( ficam muito parecidos com os de Wilde). Versões mais sofisticadas e variadas, com chocolate branco e fudge, podem ser encontradas no livro "Receitas caseiras- Muffins", das edições h.f.ullmann, coleção Le Cordon Bleu.





MUFFINS
Peneirar bem:
2 xícaras rasas de farinha de trigo
3 colheres de chá de fermento
3 colheres de sopa de açúcar
1 colher de chá de sal
4 colheres de sopa de manteiga
1 ovo
1 xícara e 1/4 de leite
Acenda o forno. Unte as forminhas. Peneire a farinha e os ingredientes secos. Ponha a farinha numa tigela, meça a manteiga e, com o garfo, vá cortando a manteiga dentro da farinha, até parecer farinha de milho grossa. Quebre o ovo numa tigela e bata com o garfo. Junte com o leite. Misture bem. Ponha dentro da tigela de farinha. Mexer um pouco, levemente, até umedecer toda a farinha. Fica uma massa grumosa. Com uma colher, encha as forminhas. Asse em forno muito quente. Pode usar passas na massa ou casca de limão ralada.

VEJA A CENA DOS MUFFINS CLICANDO ABAIXO
http://www.youtube.com/watch?v=NSMF_yJTyXY&feature=related
VEJA O TRAILER DO FILME DE 1952 COM  MICHAEL REDGRAVE
http://www.youtube.com/watch?v=3vt37AR-5H8&NR=1
VEJA O TRAILER DO FILME DE 2002 COM COLIN FIRTH
http://www.youtube.com/watch?v=U42lBo8fST8&feature=related

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

DELICADEZAS CHINESAS



Há quem seja entusiasta de Lin Yutang, quem tenha se enamorado dos livros de Pearl Buck e quem, sendo de uma geração mais recente, tenha se rendido aos encantos de Amy Tan, Anchee Min e Lisa See.
Confesso que sou dessas últimas. Da primeira, me deixei seduzir pelo "O clube da felicidade e da sorte", a obra mais bem acabada de Tan, autora sino-americana. Relato em duas gerações dos contrastes entre a vida da mulher na China antes de Mao, e das suas descendentes na San Francisco de hoje em dia, "O clube" consegue comover, sem ser piegas. Anchee Min se especializou em mulheres terríveis: Madame Mao e a Imperatriz Orquidea, personagem nefasta que aparece em todo seu esplendor no filme de Bertolucci, "O último imperador". Os relatos de Min são pincelados de sensualidade e crueldade, em doses iguais. Lisa See, no entanto, fenômeno recente nas listas de mais vendidos americanas, surpreende pela delicadeza. "Flor de neve e o leque secreto" fala da linguagem proibida das mulheres, "As palavras do amor", de uma paixão que ultrapassa a morte.
Em todas as três autoras envolve o leitor, sobretudo, a riqueza da recriação de uma cultura distante e de belissimos detalhes. Um antídoto perfeito ao estereótipo chinês que a globalização nos impôs: pastelarias e lojas de badulaques a 1,99.
A receita aqui escolhida,helàs, parecerá a paladares requintados uma citação do clichê. Mas não é. São deliciosos pastéis chineses, diferentissimos do nosso pastel servido com caldo de cana. A receita é extraída de "O livro da comida chinesa", de Jasper Spencer-Smith ( Manole).

PASTÉIS DE CAMARÃO
450g de camarões crus descascados e moídos
115g de brotos de bambu em conserva, picados
4 colheres ( de sopa) de água
1 1/2 colher (de sopa) de molho de soja
1/2 colher (de sopa) de vinho de arroz (saquê) ou xerez seco
1/2 colher (de chá) de açúcar
1/2 colher (de chá) de óleo de gergelim
Pimenta do reino preta moída, a gosto
1 1/2 colher (de sopa) de maisena

Massa:
450g de farinha de trigo comum
115 mil de água fervendo
70 ml de água fria
1 colher (de sopa) de óleo vegetal

Para fazer o recheio, misture todos os ingredientes, exceto a maisena até a mistura estar bem lisa. Junte a maisena. Divida em 30 porções.
Para fazer a massa. Coloque 315 g de farinha em uma tigela de tamanho medio. Use o restantes para enfarinhar as mãos. Junte a água fervendo. Adicione a água fria e o óleo. Misture para formar uma massa: sove até ficar macia. Forme com a massa um rolo comprido ( como para fazer nhoque) e corte em 30 pedaços. Use um rolo de macarrão para abrir cada porção em um círculo com aproximadamente 5 cm de diâmetro e espessura bem fina.
Coloque 1 porção de recheio no meio do círculo de massa. Junte as pontas e aperte-as para fechar, formando uma corda nas bordas. Repita com os círculos e os recheios restantes.
Forre um cesto de cozinhar no vapor com um pano úmido. Coloque os pastéias a cerca de 2,5 cm de distância um do outro. Cozinhe no vapor por cerca de 5 minutos. Retire e sirva. Faz 30 pastéis.
obs: esses pastéis também podem ser fritos ou assados, resultando numa massa sequinha e crocante.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

AO VENCEDOR, AS BATATAS



A expressão é conhecida, é quase a frase mais conhecida de Machado de Assis, título de livro do crítico Roberto Schwarcz, inclusive. O seu contexto, no entanto, é um pouco obscuro para quem não mergulhou nas páginas de "Quincas Borba", uma das obras-primas do grande autor brasileiro.
"– Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência de outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas."
Esta é a síntese do humanitismo, tal como pregado pelo filósofo Quincas Borba a Rubião, que não aprende o suficiente com o mestre para poupar-se de extremos dissabores.
Como nesse blog, no entanto, ao contrário, todos são vencedores ( são leitores, não são? conhecem Machado de Assis, não conhecem?), escolhemos reconvocar as batatas, que já deram o ar de sua graça nessas páginas. A versão atual é extraída do livro de Anne Wilson,"Receitas populares de batata" (Könemann). Batatas com casca e tudo e recheio ao gosto do "vencedor". Ideal para acompanhar assados, por exemplo. Ou para um lanche de inverno, acompanhado por um bom vinho.

BATATAS ASSADAS
(receita para duas pessoas)
2 batatas grandes (660 g)

1. Aqueça previamente o forno. Espete as batatas várias vezes com um garfo e leve-as ao forno durante 1 hora até que estejam cozidas.
2. Enquanto isso, prepare os recheios que desejar.
3. Faça um corte ou uma cruz nas batatas assadas, separe as metades e introduza o recheio ou, ainda, extraia a polpa, misture com o recheio e torne a introduzi-la na batata.
obs:( para cozer as batatas com a casca no microondas, fure a superfície da batata com um garfo, envolva-a em papel absorvente e coza à temperatura máxima durante 10 minutos. Deixe-as repousar, sem abrir o forno, durante 2 minutos).


RECHEIO SUIÇO
1/4 xícara de queijo gruyère ou emmenthal cortado em quadradinhos
2 fatias de presunto cortado em tiras
3 cebolas picadas
2 batatas grandes assadas

Misture o queijo, o presunto e as cebolas. Faça um corte em forma de cruz e introduza a mistura quando as batatas ainda estiverem bem quentes, para que o queijo se funda.

COGUMELOS E ALHO
45 g de manteiga
125 g de cogumelos cortados em quartos
1 dente de alho triturado
2 colheres de chá de salsa picada
pimenta moída
2 batatas grandes assadas

Aqueça a manteiga e junte os cogumelos e o alho. Frite até que estejam macios. Acrescente a salsa picada e a pimenta. Introduza a mistura nas batatas, cortadas em forma de cruz.

CAMARÕES PICANTES
15 de manteiga
250 g de camarões cozidos e sem casca
1 pitada de curcuma
1 pitada de coentro picado
pimenta moída
2 batatas grandes assadas

Aqueça a manteiga numa frigideira e frite os camarões, a curcuma eo coentros em fogo brando, durante 1 minuto. Tempere com pimenta a gosto. Faça um corte longitudinal nas batatas e recheie com a mistura.

domingo, 2 de agosto de 2009

UM CARDÁPIO DE AVENTURAS



As americanas Mary O'Hare e Rose Storey escreveram "Recipe for a Book Club", um livro de cardápios mensais para clubes de leitura. Uma ideia original e uma execução um pouco confusa. Explico. As autoras misturam sugestão de um título para cada mês do ano, com receitas de um cardápío completo e muito fácil, e leituras correlatas ao título principal sugerido. Para o mês de Novembro, por exemplo, o tema principal escolhido por elas é a Aventura, assim, com A maiúsculo. Não conheço o livro indicado, "Two years before the mast", de Richard Henry Dana, mas vejo que é a história de (outro) homem e seus barcos, "Pilgrim" e "Alert", que ele era um abolicionista, amigo de Ralph Waldo Emerson e que Alan Ladd viveu seu papel no cinema. Conheço as leituras apontadas para complementar sua história, no entanto, e elas cobrem uma gama variada demais para o meu gosto. Vão de "O chamado da floresta" ( Call of the wild), de Jack London, a "Viagens de Gulliver", de Jonathan Swift, passando por "Robison Crusoe", de Daniel Defoe, "Os três mosqueteiros", de Alexandre Dumas, "A filha da fortuna", de Isabel Allende e "Dívida de honra", de Tom Clancy. Qual seria a bússola a nortear O'Hare e Storey? O tom folhetinesco, épico, peripécias puras e simples? Pergunto isso porque elas, ao elaborar sua lista, misturam livros de entretenimento acrítico com outros, emblemáticos como crítica do homem e sua civilização (Defoe e Swift). Não que elas não se justifiquem, de certa maneira. Na avaliação que fazem do livro de Dana, elas o acham "confuso", embora fascinante em suas descrições de povos e costumes.
Para degustar esse poutpourri literário, elas sugerem um menu igualmente Alhos e Bugalhos, cuja ênfase é o exotismo, com um toque de século XIX, pelo que consigo depreender.

Chá gelado de laranja
Pasta de Alcachofra
"Gumbo" de Salsichas, Frango e Camarão
Pão francês
Pudim de pão

Detenho-me no Pudim de Pão, que é uma sobremesa que tem seu lugar em qualquer Chá das Cinco, qualquer sobremesa, e naquele lanchinho antes de dormir. É uma receita simples para a qual elas propõem um molho opcional substancioso, que pode enriquecer um "Thanksgiving Day", na opinião delas, ou nosso Natal.

Pudim de Pão

1 e 1/2 xícara de açúcar
3/4 colher de chá de canela
3/4 colher de chá de noz moscada
3 ovos
3/4 colher de chá de baunilha
3/4 xícara de passas
3/4 xícara de nozes pecans picadas
5 colheres de manteiga, derretida
3 xícaras de leite integral, aquecido
350 g de pão dormido, sem casca

Misture o açúcar, a canela e a noz moscada. Usando um "fouet", adicione os ovos e a baunilha. Com uma colher de pau, acrescente a manteiga e depois o leite. Por último, coloque o pão, mexendo levemente, mas com firmeza. Coloque numa forma retangular e no forno ainda frio, ajustando depois para cerca de 150º.
Pode ser servido quente. Também pode ser acompanhado de creme batido ou Molho de Uísque, abaixo.

Molho de Uísque ( opcional)
1/4 xícara de manteiga
1/2 xícara de açucar
1 gema de ovo
2 colheres de sopa de água
2 colheres de sopa de whiskey

Cozinhe os ingredientes(todos, menos o whiskey) em fogo baixo até que a mistura engrosse ( cerca de 5 minutos). Tire do fogo e adicione o whiskey. Tome cuidado para não adicioná-lo enquanto o molho estiver no fogo, pois do contrário ele flambará.